Escalada da violência: Municípios menores tem índices elevados em todo o Brasil.

Por: Jorge Dias


Bastou um tiro, na virilha, para que mais um maragojipano fosse levado a uma morte prematura. Dessa vez não era um ladrão ou alguém envolvido com o tráfico de drogas. Era um trabalhador que, em meio a uma conversa de bar, segundo relatos, mexeu com a mulher errada de uma pessoa errada. A indignação e a revolta que toma conta do sentimento do cidadão Maragojipano, nesses dias, não é só a da perda de Val, é a da perda da paz, que sempre foi característica de nossa, antes, pacata cidade.

Desde o ano 2000 que se percebe uma taxa de elevação nos crimes violentos em cidades com menos de 100 mil habitantes. Maragojipe não ficaria de fora. Estudos do Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (IPEA) mostram que as cidades menores tem recebido menos aporte na segurança enquanto cidades maiores recebem mais atenção e recursos, o que faz com que os traficantes mudem sua estratégia de comercialização. Até a década de 1999 as cidades com mais de 500 mil habitantes eram os centros de violência dos Estados, mas com a implantação de modelos de segurança e enfrentamento direto ao crime organizado esses índices começaram a mudar. E deu certo! São Paulo e Rio de Janeiro registraram quedas de 66,6% e 35,4%, respectivamente, no número de assassinatos por 100 mil habitantes, enquanto na Bahia o índice elevou-se a mais de 339% entre 2000 e 2010. Quem puxou esse número para cima foi a cidade de Simões Filho, localizada próxima a Salvador. São 4 mortes registradas diariamente, o que significa 139,4 assassinatos por 100 mil habitantes. Em 1980 o número total de mortes por homicídio registradas no Brasil foi de 13.910 pessoas e em 2011 foi de 52.198 pessoas. No período citado, já foram assassinados no Brasil 1.145.908 pessoas, é o que mostra o Mapa da Violência 2013, editado pela Secretaria Nacional da Juventude. Em Maragojipe, de acordo com o DEEPASK em 1999 Maragojipe registrou 3 homicídios, em 2000, foram 2 homicídios, em 2003, 2004 e 2005 foi 1 morte, em 2006 foram 5 homicídios, em 2007, 4 pessoas assassinadas, em 2008, 5 pessoas, em 2009 4 homicídios, em 2010 e em 2011 foram 5 pessoas. Ainda não há dados tabulados em 2012 e 2013, mas, de certo, houve elevação significativa nas taxas de mortalidade por causas violentas.

O que se percebe nos estudos é que a elevação da condição social da população de cidades menores, aliada a pressão do aparato público contra os criminosos nas grandes cidades geraram as migrações da violência, que vem atrelada ao tráfico de drogas e à tentativa de domínio de território pelo comando do tráfico. A interiorização da violência pegou ponga na propaganda disseminada sobre o crescimento da economia de Maragojipe com a instalação de uma obra com o porte da obra do Estaleiro. Mas Maragojipe não estava (e não está) preparada para o que virá. Sua população não foi alertada dos problemas que acometem cidades que tiveram grandes projetos montados em seu território.

A violência atrelada a um empreendimento milionário não é exclusividade de Maragojipe, como sabem bem os moradores da cidade de Altamira, aos pés da barragem de Belo Monte, no Pará. Em Maragojipe, o aparato de segurança do Estado não põe as mãos com força, apenas aparece como protagonista onde deveria ser ator principal.

Maragojipe, atualmente, sofre com suas escolhas, feitas de forma errada, há muitos anos. Os políticos não percebem que a violência é fruto de seu trabalho feito de forma equivocada ou sem qualidade. Educação não é prioridade para governantes, que só percebem no dinheiro, o mote para o crescimento de seu status de campanha.

Não se pode negar a importância do Polo Naval para a economia do município. Gerar renda e emprego é um discurso moderno da política para angariar votos, mas não se pode negar que as boas intenções vieram carregadas de má fé. Cada bala disparada em Maragojipe tem, em seu sangue, as digitais dos políticos que passaram (ou estão) sentados em seus tronos, quase como deuses intocáveis. Esses são os responsáveis ao se eximirem da responsabilidade que pesa sobre seus ombros.

Cabe à população, agora, manifestar-se e mudar de atitude. Esquecer as diferenças politicas e partidárias. Esquecer as ideologias por um bem comum. Trabalhar como uma colônia de formigas, que, independente de si mesmo, trabalha pelo bem de todos os indivíduos. Cabe a cada cidadão gritar indignado para que outros tantos “Val Mãozinha” não sejam alvos de balas ou facas. Para que outras tantas mães, pais, irmãos, filhos ou amigos de qualquer cidadão não tenha que chorar lágrimas tão dolorosas e para que não precisem viver se perguntando “até quando?”.

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