Pensando Maragogipe. Asfalto? - por Rosa Maria Vieira de Melo


Por Rosa Maria Vieira de Melo (Museóloga)

O município de Maragogipe teve sua origem em princípios do século XVII. A freguesia é de 1680, do tempo do governo do Bispo D. Pedro da Silva Ávilla. A vila foi criada a 16 de fevereiro de 1724, no reinado de D. João V, com portaria do Conde de Sabugosa, Vasco Fernandes César de Menezes, Vice-Rei do Estado e em virtude da Ordem de S. Majestade D. Pedro II, Rei de Portugal, de 17 de dezembro de 1693. A vila de Maragogipe era de jurisdição real, tendo se desenvolvido juntamente com os seus povoados de vastos territórios.

A principal indústria do município foi o fumo. Em Maragogipe, a firma individual Francisco Vieira de Mello se transforma em A. VIEIRA DE MELLO & CIA, cuja fábrica passou a ser chamada VIEIRA DE MELLO, nome que se perpetuou.

A antiga fábrica matriz da Suerdieck S. A. – Charutos e Cigarrilhas hoje é um conjunto de prédios em ruínas. Por volta de 1952, a fábrica de charutos Suerdieck contribuía com 70% das receitas municipais, estaduais e federais. A população da cidade àquela época contava com 9.700 habitantes, dos quais cerca de 6000 tinha sua subsistência diretamente ligada à fábrica.

Hoje, devido ao petróleo na região, municípios do Recôncavo baiano como Maragogipe, Cachoeira e São Félix se encontram em nova fase, depois de décadas relegados ao esquecimento: o ciclo da indústria naval. A economia da região começa a sentir os impactos positivos com a construção do Estaleiro Enseada do Paraguaçu (EEP) no distrito de São Roque, localizado em Maragogipe. Progresso econômico, mais empregos, oportunidade para que os governantes invistam em educação, cultura, saúde, segurança e saneamento básico, entre outros benefícios importantes para a população.

O município de Maragogipe possui sítios remanescentes de Mata Atlântica, com cachoeiras e rios navegáveis, como o Paraguaçu, extensos manguezais e fauna e flora riquíssimas. Possui um grande patrimônio de áreas naturais. A cerâmica também faz parte da cultura da região, elaboradas nos distritos de Coqueiros e Nagé. Possui um patrimônio expressivo, alguns tombados pelo Patrimônio Histórico, como a Igreja Matriz de São Bartolomeu, do século XVII, o prédio da Casa da Câmara e Cadeia, os prédios das Filarmônicas Terpsícore e Dois de Julho, o prédio da Casa da Cultura e do Fórum de Justiça.

É fundamental preservar o patrimônio construído, natural e cultural de qualquer região. Em Maragogipe, o clima, o relevo, a vegetação e hidrografia permite que este se encontre entre um dos mais belos da região, com uma localização privilegiada e grande beleza natural. Assim, é necessário criar uma estratégia para a preservação do seu patrimônio material, imaterial e natural, aquilo a que denominamos de patrimônio integral.

A preservação deve ser entendida como instrumento de cidadania, um ato revolucionário capaz de transformar os indivíduos.A memória deve conter o conhecimento, ou o reconhecimento, de que esta é a base necessária para a preservação da identidade cultural, por ser ela a sua referência. Segundo o antropólogo Roque de Barros Laraia, “o homem é o resultado do meio cultural em que foi socializado. Ele é o herdeiro de um longo processo cumulativo, que reflete o conhecimento e a experiência adquiridos pelas numerosas gerações que o antecederam. A manipulação adequada e criativa deste patrimônio cultural permite as inovações e as invenções. Estas não são, pois, o produto da ação isolada de um gênio, mas o resultado do esforço de toda a comunidade”.

Maragogipe é ainda uma bela cidade do recôncavo baiano. Descuidada por anos e anos pela sua administração pública,viusua história ser relegada mediante o abandono do patrimônio público, dos quais fazem parte seu casario, (sua paisagem construída), sua cultura e sua história. Todas as lutas travadas por maragogipanos ilustres, que não citarei nomes para não olvidar nenhum, foram se tornando sonhos distantes, longínquos, e vimos decepções estampadas nos rostos e em reclames de nossos pais e avós.

Hoje encontramos outros maragogipanos (filhos ou netos daqueles), lutando para preservar a memória social, a história e a identidade cultural desta terra. Espera-se que tenham mais sucesso.

Notícias correm de que vão asfaltar Maragogipe. Alguém consegue ver nossos paralelepípedos cobertos por aquelas camadas de asfalto? Definição de asfalto: O asfalto é um betume espesso, de material aglutinante escuro e reluzente, de estrutura sólida, constituído de misturas complexas de hidrocarbonetos não voláteis de elevada massa molecular, além de substâncias minerais, resíduo da destilação a vácuo do petróleo bruto.

Embora em larga utilização no Brasil, o asfalto como solução para rodovias em regiões tropicais não é ideal, devido ao intenso intemperismo destas regiões. Rodovias com superfície de concreto são mais resistentes às intensas variações diurnas de temperatura e umidade características do clima tropical. E em nossas portas?

O asfalto pode provocar irritação nos olhos, problemas respiratórios, dores de cabeça, náuseas, cansaço e sonolência.

Enquanto filha de Maragogipe, não posso deixar de me pronunciar quanto a este fato. Não concordo com o asfaltamento das ruas. Considero uma LÁSTIMA!... Devemos valorizar nossa cidade, nosso patrimônio maior. Sei que a cidade não é tombada como Patrimônio da Humanidade, mas para mim é como se o fosse.Observemos se Ouro Preto é asfaltado. Cachoeira, para ficarmos mais por perto, e cidades da Chapada Diamantina. Se nós não valorizarmos o que é nosso, e começarmos a descaracterizar o nosso patrimônio, vai sobrar o quanto de história, de memória e identidade dos maragogipanos?...

Qual será nosso futuro? Cheirar asfalto e apreciar os buracos que estarão por todo lado devido à péssima qualidade do mesmo? Não é assim que temos visto? Não é muito mais lógicoe cuidadoso com a cidade assentar bem o seu belo calçamento, ao invés de tomar medidas tão precipitadas? Ainda é tempo de fazer o certo!...

Rosa Maria Vieira de Melo
Museóloga

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