Bloco das Almas 2015: Sinais de resistência ou a crônica de uma morte anunciada?


Por Zevaldo Sousa 

Não estou aqui para buscar culpados, mas para provocar a discussão. A cada ano a nossa cultura vai se adequando aos novos conceitos da nossa sociedade e até certo ponto, isso não é ruim, pois sei que é preciso corrigir erros do passado. Todavia, precisamos analisar que processos de mudanças influenciam negativamente nossa cultura e o que precisamos fazer para mudar esta situação. 

Neste belo dia de sexta-feira, 13 de fevereiro, o maragogipano tinha história para fazer bonito neste Bloco do Silêncio, mas a violência que impera em nossa cidade não permitiu.

Se este fator não tivesse em evidência, bastava apenas ressaltar nossas raízes, nossa cultura, nossa tradição secular. Bastava que nós invocássemos nossa ancestralidade e nas ruas demonstrássemos o quão é fervoroso o nosso sentimento cultural. Bastava lembrar que o Bloco das Almas era apenas uma brincadeira que perdura por mais de setenta anos, quando os idealizadores - funcionários da Suerdieck e amigos - resolveram brincar à meia noite saindo do cemitério e percorrendo as ruas da cidade. AMOR e AMIZADE, termos que definem a nossa cultura.

Sinais de resistência ou a crônica de uma morte anunciada?

Naquele tempo, crianças tremiam de medo daquelas almas fantasiosas que anunciavam o Carnaval Maragogipano. Almas que nos relembrar o cerne da nossa cultura carnavalesca quando as pessoas pegavam um pano branco, faziam furos para enxergar e iam para as ruas brincar.

Durante tanto tempo, o Carnaval de Maragogipe foi mudando com singelas nuances. Aos poucos, a cada novo invento da humanidade, havia processos de incorporação à nossa cultura, mas nada disso tirava o brilho e o sentimento de paz. Até mesmo nestes últimos dez anos, com todo processo de mercantilização e turistificação do Carnaval, tínhamos paz nos nossos corações. As mudanças sempre existiram. Não podemos negar, mas não lembro de ser tão negativa.

O Bloco das Almas que sempre saiu à meia noite desde tempos imemoriais também sofreu com estas mudanças. E hoje vi, desesperadamente, o seu o maior baque. Mas antes de citá-lo, preciso lembrar de outros: Primeiro, a popularização que resultou no processo inclusão do Bloco como parte do cotidiano; Depois, a venda e o marketing tomaram conta e a partir deles, flashes fotográficos e muita rede social; Logo, em seguida, seu declínio e com ele, processos de incentivos como concursos; E agora, mais uma vez, a queda, pois deixou de sair rigorosamente à meia noite para sair às 21 horas, devido ao caos e ao clima de medo e insegurança instalado na cidade.

Para alguns, eis o mais firme sinal de resistência que não podemos deixar desaparecer. Para outros, apenas mais uma crônica de uma morte anunciada.

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