Carnaval de Maragogipe 2015: Análise sobre a segurança; Mais ranços do que avanços e muitas questões

Mascarados e a população de modo geral pedia: Devolva meu Carnaval!

Por Zevaldo Sousa

Em 2015, quem foi curtir o Carnaval de Maragogipe brincou com muita paz e alegria. Nitidamente, apesar do clima de insegurança que ronda o município, o clima de diversão estava presente e muitos foliões fizeram sua festa.

Finalizado o Carnaval de Maragogipe deste ano, podemos escrever sobre este tema tão polêmico devido ao avanço da violência no município: A Segurança.

Por falta dela (a segurança), durante todo o ano, a população de Maragogipe anda com medo e acuada, e por este motivo, muitos ficaram receosos de curtir o Carnaval,  muitos viajaram, muitos deixaram de vir a sua cidade natal, mas enfim, tudo deu certo e "segundo relatório do comandante do Pelotão de Emprego Tático Operacional (PETO), tenente Suzart, nenhuma ocorrência relevante foi registrada", pelo menos, no circuito do Carnaval. (grifo nosso)

A Polícia Militar intensificou suas as ações de abordagens preventivas de vandalismo, depredações, roubo, porte ilegal de arma e tráfico de entorpecentes em diversas áreas do município com objetivo de reforçar e oferecer mais segurança ao folião na ida para a festa e na volta para casa.

Mas aqui, vale registrar uma nota para o Governador Rui Costa: Maragogipe necessita deste tipo de segurança o ano inteiro para que no próximo ano, efeitos negativos como este não superem o nosso prazer cultural.

Por um lado, este saldo positivo no quesito segurança foi fator importante no processo de resistência do Carnaval de Maragogipe às mudanças que estão ocorrendo nestes últimos anos, ou pelo menos, a partir dela, talvez despertaremos do sono profundo que adormece nossa cultura.

Por outro, para que esta segurança ocorresse, o Carnaval de Maragogipe amargou pontos negativos, pois foi necessária a centralização da festa e com isso, o Carnaval perdeu adeptos, opções, visibilidade turística, perdeu oportunidades, perdeu blocos que estavam desorganizados por falta de segurança particular ou simplesmente não podiam fazer barulho, perdeu o circuito e o trio elétrico, perdeu algumas ações identitárias. Mascarados e a população de modo geral pedia: Devolva meu Carnaval! Precisou, entre outros fatores, dar uns dez passos para trás para poder, no futuro, se fortalecer.

Mas, por quê ocorreu esta centralização?

O fato mais notório foi a recomendação do Ministério Público e eu realmente não vi problema algum no que ela estava pedindo. Pedir é uma coisa. Aceitar o pedido é outra totalmente diferente. Eis um problema de interpretação. Quando o Ministério Público fez a recomendação, a promotoria pensou na qualidade de vida da população, pensou nos problemas que assolam nossa sociedade, pensou nos visitantes. Porém, faltou tempo para discutir os reflexos destas recomendações na cultura que atraía tantas pessoas.

Mas por quê faltou tempo?


Respondo esta pergunta com outras duas: Quanto tempo têm que o carnaval foi imaterializado? E quanto tempo têm de discussões acerca desta manifestação cultural? 

Não vou muito longe. Vale lembrar a reunião sobre o Carnaval (Links para acesso ao conteúdo AQUI e AQUI). Nela ficou acordado que em 2015:
  • Seria proibido objetos perfuro-cortantes no circuito, como garrafas e copos de vidro, palito de churrasco, etc.; 
  • O trio finalizaria às 22h; 
  • A programação do palco também encerraria mais cedo que nos anos anteriores; 
  • Seria proibida a circulação de veículos com qualquer tipo de equipamento sonoros não autorizados dentro do circuito da festa; 
  • Os blocos e os grupos de mascarados precisariam fazer um cadastro na Casa da Cultura e a segurança seria reforçada não somente no circuito do Carnaval. 
  • Sob a fiscalização da Polícia Militar, as máscaras deveriam ser retiradas até as 18h. 
Estas informações podem ser observadas na imagem retirada da página do facebook da própria Prefeitura de Maragogipe e que foi mudada poucos dias do Carnaval com a recomendação do Ministério Público.


Em nenhum outro momento houve consulta popular, e nem a prefeitura publicou decreto-lei regulamentando a festa, como em todos os anos se faz. Aliás, estes decretos seriam desnecessários se existisse uma lei que regulamentasse o Carnaval, visto que ele é um bem imaterial do Estado e, na minha ótica, necessita de regulamentações para a sua manutenção.

Vale ressaltar que outras opções de segurança poderiam ter sido tomadas, mas a prefeitura preferiu se omitir e agora entramos numa contradição. Como pode um Carnaval que sempre foi intitulado como o Carnaval da Paz e da Tranquilidade perder características tão importantes de sua cultura em apenas um ano? Antes, foliões usavam como argumento da beleza e da paz do nosso carnaval, atualmente que tipo de argumentos iremos utilizar?

Bem. Estou chegando ao fim e não poderia deixar de falar da Polícia Civil, Militar e da Guarda Municipal. Se estou falando em segurança estas três equipes devem ser citadas, afinal de contas, cumpriram seu papel nos festejos e tranquilizaram a massa foliã obtendo saldo positivo. Mas, diga-se de passagem, ainda falta instrumentos de trabalho eficientes para estas equipes. Aliás, cabe perguntar: A guarda municipal ainda existe ou é apenas um espectro que ronda nossos sítios histórico-culturais? O que aconteceu com a Guarda Municipal? Ela já tem seu estatuto? Ainda está desempenhando suas funções de prevenção nas escolas com palestras e depoimentos importantes para a nossa juventude? Tenho minhas dúvidas.

E agora, depois de toda esta análise, cabe pontuar. Tenho plena certeza que precisamos planejar ações para os próximos Carnavais com objetivo de manter a folia, a nossa tradição e a nossa cultura.

Está mais do que na hora da Câmara de Vereadores convocar a população para discutir o Estatuto do Carnaval em uma audiência pública. Somente cumprindo o papel deles - legislar - poderemos começar a definir marcos e rumos para a manutenção deste símbolo imaterial do Estado da Bahia.

Está mais do que na hora do Conselho de Cultura estar ativo para definir metas, prazos e onde a prefeitura deve investir nos próximos anos.

Está mais do que na hora da gestão municipal reconhecer seus erros e aprender a ouvir quem realmente faz o Carnaval de Maragogipe: O povo, o verdadeiro ator, seu verdadeiro chefe.

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