O Canteiro de São Roque do Paraguaçu: Uma solução baiana para construção de módulos offshore


Por: Eduardo Aragon (Engenheiro)

A Operação Lava Jato tem revelado um cenário de denúncias, impôs um ambiente de desconfiança e levou a Petrobras a declarar inidôneas 23 das tradicionais maiores empresas de construção e montagem, que executam obras de projetos da petroleira.

Na Bahia, a crise já provocou a demissão de quatro mil trabalhadores do estaleiro Enseada Indústria Naval, em Maragogipe, contratado pela Sete Brasil para construir seis navios sonda a serem afretados pela Petrobras. O Enseada é um consórcio formado pelas baianas Odebrecht, OAS, UTC, todas incluídas na lista das 23 impedidas de novos contratos com a Petrobras. Complementa o consórcio a japonesa Kawasaky, com 30% do capital.

Nessa conjuntura, de desemprego crescente, a Petrobrás decidiu levar os poucos grandes contratos em andamento para o exterior, à exemplo da fabricação de módulos de compressão, a serem embarcados em seis navios de produção, denominados FPSO, o que tem provocado a demissão de milhares trabalhadores e o atraso no prazo previsto para a entrega dos módulos, que irão provocar mais atrasos na construção dos navios e no início da produção de petróleo e gás.

O Canteiro de São Roque do Paraguaçu, tradicional instalação de construção offshore de propriedade da Petrobras, foi cedido ao consórcio de empresas que compõem o Estaleiro Enseada Indústria Naval, ora com atividades desativadas, em função dos desdobramentos da Operação Lava jato e o envolvimento da contratante Sete Brasil.

No passado, a Petrobras, ao licitar módulos de plataformas, permitia uma concorrência mais equilibrada, na medida em que ofertava as instalações do Canteiro de São Roque para as empresas vencedoras ali realizarem a montagem dos módulos. Isto ampliava o leque de participantes, pois empresas de engenharia e montagem qualificadas, mas que não dispunham de canteiro próprio, também podiam participar da licitação, o que resultava em melhores preços para a Petrobras.

Com as enormes dificuldades atuais, onde as empresas que possuem canteiros encontram-se impedidas de serem contratadas pela Petrobras, além do complicado ambiente de investigações em curso, seria por demais oportuno o retorno ao modelo de sucesso praticado no passado, pois há empresas qualificadas, que poderiam atuar em consórcios, utilizando as instalações de São Roque, com benefícios indiscutíveis ao programa de conteúdo local do Governo Federal e enormes ganhos para a Bahia.

Adicionalmente, mesmo que não tenha sucesso a contratação dos módulos com empresas nacionais, a Petrobras poderia abrir a concorrência internacional, condicionando a construção dos módulos em São Roque, o que além de gerar emprego, renda e arrecadação, fortaleceria a engenharia baiana/brasileira, ajudando a consolidar o parque naval, ora em implantação.

Há inúmeras oportunidades de construção de módulos para a Petrobras, que estão sendo perdidas para os países asiáticos, como os 32 módulos dos oito navios replicantes, que saíram de Charqueadas-RS.

Segundo especialistas em construção naval, o Canteiro de São Roque tem condições plenas de construir, simultaneamente, cerca de 15 a 20 módulos, mesmos considerados de grande porte, com mais de 1.000 toneladas, uma vez que, após construídos, são empurrados para serem embarcados em uma balsa (operação denominada load out), navegando para os estaleiros onde serão finalmente integrados nas plataformas ou navios tipo FPSO.

Como há, na Bahia, mão de obra e engenharia qualificadas, inclusive agora ainda mais disponível pela situação vivenciada pelo Enseada, é mais que oportuno explorar esta alternativa, que pode, em poucos meses, retomar o nível de empregos na indústria naval/offshore, gerando algo em torno de 3 mil postos de trabalho, adicionais àqueles que, possivelmente, deverão ser retomados com o equacionamento da situação do Enseada.

Há informação recente que o Consórcio Enseada Indústria Naval já devolveu o Canteiro de São Roque para a Petrobras, o que abre caminho para o encaminhamento da retomada da estratégia de disponibilizar o Canteiro às empresas que vençam processos licitatórios para construção de módulos.

É preciso haver negociação com a Petrobras para que a empresa disponibilize de forma oficial aos contratantes dos módulos para os FPSO que, nos próximos dois anos serão contratados exclusivamente por afretamento, ou seja, quem vai contratar não é a Petrobras e sim os vencedores das licitações de afretamento, mas que, também, deverão cumprir os percentuais de conteúdo local.

Considerando que cada FPSO tem em média 15 módulos, 40 skids, 1 pipe rack e 1 flare, e tomando como base a média dos valores apresentados nos replicantes e cessão onerosa, podemos estimar que estas oportunidades, sendo contratadas no Brasil nos próximos 2 anos, podem chegar até R$ 3,0 Bi, já considerando um Conteúdo local de 50%.

Em não havendo esta negociação prévia – e urgente – com a Petrobras, as empresas que participarão da licitação (MODEC, BW, SBM, entre outras), não colocarão suas propostas contando com esta facilidade de utilizar as instalações do Canteiro de São Roque devendo a construção de módulos em território nacional ser destinada a canteiros no Rio de Janeiro, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e até mesmo Alagoas, onde já foram construídos e entregues alguns módulos, recentemente.

A cadeia de construção naval pode chegar a uma relação de 1 para 7, ou seja, cada emprego direto no canteiro gera mais sete empregos indiretos, o que, considerando um contingente de 3.500 empregos diretos em São Roque, propaga mais 24.500 empregos indiretos, na Bahia e nos demais estados fornecedores de bens e serviços da cadeia naval offshore.

Fonte: Eduardo Aragon (Engenheiro)

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