Maragogipe lidera estatística dos municípios que mais perderam empregos formais no Brasil


Valor Econômico

No início de 2015, Maragogipe, a 130 quilômetros de Salvador, na Bahia, empregava 4.806 trabalhadores com carteira assinada. A combinação da Operação Lava-Jato e a crise do setor de petróleo, ambas com fortes consequências sobre as operações e os investimentos da Petrobras – além da recessão, que provocou demissões em todo o país -, fizeram a cidade perder 75% desses empregos. Nada menos que 3.588 vagas formais foram fechadas na cidade no ano passado, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).

Maragogipe lidera a estatística dos municípios brasileiros que proporcionalmente mais perderam empregos com carteira assinada em 2015, de acordo com levantamento feito pelo Valor e que considerou as mil localidades com mais vagas formais do país. A exemplo de outras cidades que estão no topo da lista – como Altamira, no Pará, e Ipojuca, em Pernambuco -, o fim de grandes obras de construção deixou na cidade um expressivo contingente de desempregados na construção civil, setor que proporcionalmente mais demitiu em 2015.

Na maioria dos casos, esses trabalhadores são migrantes, tradicionalmente se mudam de um Estado a outro para trabalhar em grandes obras – na falta delas, porém, muitos permanecem onde estão, mesmo desempregados.

Na lista dos 15 municípios que mais perderam postos de trabalho, a combinação de operação Lava-Jato, crise do petróleo e reestruturação da Petrobras também explica diretamente o aumento do desemprego em mais três cidades: Ipojuca, em Pernambuco, Itaboraí e Itaguaí, no Rio de Janeiro. Nas mineiras Itabira e Itabirito, o fim das obras relacionadas a um projeto de ampliação e recuperação de minas antigas da Vale na região do quadrilátero ferrífero, que desempregou milhares de pessoas na construção civil, foi potencializado pela crise na mineração decorrente da queda no preço do minério de ferro. Nas duas cidades, 11% do emprego formal no setor extrativo foi perdido no ano passado.

Em pequenas cidades que integram o ranking das maiores demissões, destacam-se como causas dispensas em frigoríficos e em usinas de açúcar e álcool. Embora acentuadas pelo fim de grandes obras, em muitas cidades, as demissões refletem a frustração com projetos que elevariam o emprego pós-conclusão das obras.

O prefeito de Itabira, Damon Lazaro de Sena (PV), conta que no pico, as obras da Vale (em 2008 a mineradora iniciou um projeto conhecido como Itabiritos, de readequação de minas antigas no quadrilatéro ferrífero) envolveram 10 mil trabalhadores, o que criou empregos em serviços (alojamento e alimentação, entre outros) e na construção, segmento que atraiu muitos migrantes até porque não havia mão de obra disponível na cidade. “Agora, além dos desempregados pelo fim da obra, a crise na mineração provocou muitas outras demissões”, diz o prefeito.

Em 2015, o orçamento da cidade previa R$ 525 milhões, mas apenas R$ 460 milhões entraram nos cofres da prefeitura. “Só dos royalties da mineração, passamos de R$ 8 milhões mensais no começo do ano passado para R$ 2,5 milhões agora”, informa.

Assim como a próxima Itabirito, Itabira quer reduzir a dependência da cidade da mineração. Em Itabira, Sena está empenhado em ampliar o campus da Universidade Federal de Itajubá (Unifei) que já funciona na cidade. “É um jeito de usar o dinheiro da mineração para gerar alternativas econômicas que reduzam nossa dependência dela”, diz ele. Em Itabirito, a prefeitura criou um distrito industrial e está confiante que 35 pequenas e médias empresas vão se instalar no local ainda em 2016 e mudar a cara do atual desemprego.

O secretário de Desenvolvimento Econômico de Itabirito, Sanders Jones de Assis, estima que cerca de 2 mil trabalhadores que vieram para a cidade para trabalhar nas obras relacionadas à ampliação e readequação das minas da Vale tenham permanecido no município. Além dos desempregados da construção civil e do setor extrativo, a cidade também sofreu com o fechamento da fábrica da Delphi, fornecedora da Fiat, que se mudou para outra cidade e fechou 800 postos de trabalho em Itabirito, diz Assis. Na lista de novas empresas, a Metso (fabricante de máquinas para mineração) está instalando um centro de distribuição na cidade, conta o secretário.

A cidade de Itabira, conta o prefeito Sena, também ficou com uma herança de trabalhadores que vieram para as obras e ficaram. “Muitos chegaram ainda em 2008, 2009, casaram e tiveram filhos”, pondera, relacionando que essa ampliação da população também demandou mais serviços públicos, em saúde e educação.

O mesmo aconteceu em Itaboraí, no Rio de Janeiro, onde a paralisação das obras do polo petroquímico do Comperj em decorrência dos desdobramentos da operação Lava-Jato deixou o município com saldo negativo de 15,3 mil vagas, 36,8% do volume registrado em dezembro de 2014. “Muita gente ainda está aqui porque não há outras grandes obras. Os estaleiros estão parados”, diz o secretário de Desenvolvimento Econômico, Luiz Fernando Guimarães.

As notícias veiculadas no fim do ano passado de que a Petrobras relançaria neste ano dois editais para retomar parte das obras, ele acrescenta, também contribuiu para que muita gente preferisse ficar. “O Sebrae tem nos ajudado, com os programas de formação de empreendedores, mas a gente já percebe um aumento no número de ambulantes”, exemplifica.

A arrecadação do Imposto sobre Serviços (ISS), segundo o secretário, despencou 47%, chegando a R$ 126 milhões no ano passado. Em dificuldade, a prefeitura demitiu dois mil funcionários comissionados e reduziu em 20% a remuneração dos que ficaram. Em grave crise fiscal, o governo do Estado também não é uma alternativa de financiamento, ele completa. “Não sabemos como vamos chegar ao fim do ano”.

Em Maragogipe, o cenário atual de desemprego se assemelha ao da década de 1970, afirma o procurador-geral do município, Edval Jorge dos Santos. Naquela época, a crise do polo fumageiro do Recôncavo Baiano levou a fábrica de charutos da Suerdieck, na época a principal empregadora da cidade, a demitir praticamente todos os funcionários, quase 6 mil pessoas.

Das vagas criadas durante a implantação do estaleiro Enseada, que pertencia ao consórcio formado por Odebrecht, OAS e UTC, ele diz, cerca de 40% eram ocupadas por moradores da região. “Essas pessoas agora recorrem à Prefeitura, mas ela também não consegue empregar mais ninguém”, ele afirma, fazendo referência à queda brusca da arrecadação municipal em decorrência do encerramento das atividades do Enseada e do volume menor de repasses do Fundo de Participação dos Municípios (FPM), uma fonte de renda importante para Maragogipe.

São Roque do Paraguaçu, um dos distritos que mais cresceram com as perspectivas de investimentos geradas pela chegada do estaleiro e pela perspectiva de instalação de um polo industrial no entorno, experimenta uma redução expressiva no valor dos imóveis e na atividade do comércio.

A situação é parecida no outro extremo do país, na cidade gaúcha de Rio Grande. Com a paralisação das atividades nos três estaleiros na região – Rio Grande 1 e 2 e Honório Bicalho -, o município perdeu 3,6 mil postos de trabalho, 7,3% do volume registrado no fim de 2014. Nascido e criado na cidade, o presidente do Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias Metalúrgicas e de Material Elétrico, Benito Gonçalves, afirma que o cenário de aumento do desemprego é agravado pela crise fiscal do governo. No ano passado, a prefeitura interviu em um dos dois hospitais mantidos pelo Estado na cidade e mantém com dificuldade parte dos serviços da Santa Casa.

Na também gaúcha Guaíba, o fim das obras de ampliação da fábrica da Celulose Riograndense, que iniciou em outubro de 2013 e terminou em maio de 2015, ultrapassou R$ 5 bilhões em investimentos e gerou mais de 11 mil postos de trabalho diretos e 21 mil indiretos, deixou um saldo negativo no Caged de 3,6 mil empregos só na construção civil.

Embora registrados na cidade, a maioria desses trabalhadores não mora em Guaíba, diz o secretário de Desenvolvimento Econômico, Cleber Quadros. Quando a obra começou, a prefeitura mapeou a disponibilidade de mão de obra na cidade e negociou com a empresa que o restante dos trabalhadores fossem contratados em cidades vizinhas e viessem todos os dias de ônibus para Guaíba. “O objetivo do prefeito – foi evitar a criação desse cinturão de desempregados no fim da obra”, explica Quadros. O prefeito é Henrique Tavares (PTB).

Guaíba integra a lista das cidades com mais fechamento proporcional de postos de trabalho em 2015, mas Quadros pondera que, em 2016, a cidade pretende figurar na lista dos que mais empregaram. Além das contratações da Celulose Riograndense, a cidade vai sediar a fábrica da Foton (fabricante de caminhões) e o centro de distribuição da Gefco, empresa do grupo Peugeot, conta o secretário.

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