A fábula do Canil (por André Bomfim)

Por André Bomfim

Em uma determinada cidadezinha no interior do Ceará, entre a década de 80 e 90, existia um canil da Raça Pitbull, administrado pelos Irmãos Alberto, Jaques e José que era especialista em aperfeiçoamento e cruzamento daquela raça. Venceu por 05 (cinco) anos consecutivos o prêmio de melhor cão do ano, entretanto, no inicio da década de 90, mais precisamente em 1992, uma epidemia alastrou-se naquela cidade, a Leishmaniose, matando inúmeros cachorros da cidade. Dos 13 animais do canil, quatro tiveram que ser sacrificados, pois contraíram tal doença, dentre eles o macho reprodutor. 

Com a morte do reprodutor, o canil começou a passar por inúmeros problemas, sejam eles da alçada financeira, administrativa e societário. Seus donos, Jaques, José e Alberto, começavam a pensar em desfazer a sociedade e fechar as portas do canil. De 1992 a 2000, o canil sobreviveu com apenas 09 cachorros e não tinha vencido mais nenhuma competição que disputou. Quase esquecido no cenário de competições, um dos sócios - José, como última tentativa para não fechar o canil, viajou pelo Brasil em busca de encontrar um animal que pudesse substituir o seu macho reprodutor e consequentemente voltar a trazer glória e orgulho para aquele canil. 

Passou por Belo Horizonte, Distrito Federal, Rio de Janeiro, locais onde existiam os melhores cachorros e não encontrou nenhum cachorro que lhe agradasse. No interior da Bahia, enquanto almoçava e tomava cachaça, em boteco na beira de um rio, avistou um cachorro todo enlamaçado comendo restos de comida próximo ao manguezal. 

No mesmo instante seus olhos brilharam, e naquele momento José estava convicto que tinha encontrado o animal que procurava. Imediatamente chamou o garçom que lhe atendia e perguntou, de quem é aquele cachorro que está na lama? O garçom respondeu, aquele cachorro era de um senhor, entretanto, após morder o filho e a esposa do seu ex-dono, o mesmo abandonou-o. 

Naquele momento, José se levantou e foi andando em direção cachorro. Ao chegar bem perto, o mesmo passou a estalar os dedos, como se tivesse chamando o animal, foi quando ouviu o grito do garçom: “CUIDADO SENHOR, ESSE CACHORRO NÃO CONSIDERA NINGUÉM… LEMBRE O QUE ELE FEZ COM A FAMÍLIA DO SEU EX-DONO”. 

Receoso, José voltou ao boteco e solicitou um pedaço de carne ao garçom. Com a carne na mão, dirigiu-se novamente em direção ao cachorro, estalou os dedos e quando aquele aproximava-se, jogou o pedaço de carne em sua direção. Após saciar a sua fome, o Pitbull já atendia os chamados do seu novo dono. 

Chegando no canil com o referido cachorro, José foi taxado de maluco pelos seus irmãos. Alberto era um dos que demonstravam maior insatisfação, desferindo palavras agressivas, tais como: “Como é que pode, você viajar durante 03 meses e me aparecer com um pitbull desnutrido, horroroso desse jeito? 

José, na maior serenidade possível, afirmou: Vou cuidar do mesmo e na próxima competição que será em 03 meses, vamos vê se o mesmo não irá vencer. Sendo assim, aquele pitbull passou a ter tratamento de rei, ficava numa cela separada, comia uma ração superior a dos demais, utilizava os melhores equipamentos de treinamento, ou seja, recebia uma estrutura muito melhor que os outros cachorros. Aproximava-se a competição e José canalizou 70% dos recursos do canil, exclusivamente para o bendito pitbull, a ponto de faltar comida para alguns cachorros que passaram a se transformar em cachorros perigosos, traiçoeiros. 

O canil rebelou-se contra o pitbull preterido de José. Alberto e Jaques não aceitava aquela situação e não acreditavam no potencial do cachorro trazido por José, bem como achavam que todos os cachorros deveriam receber o tratamento igual. A competição chegou e dos 05 cachorros que disputaram a mesma, o pitbull trazido por José foi o quarto mais bem colocado. Naquele momento, Alberto e Jaques diziam: eu lhe avisei, gastamos o dinheiro do nosso canil em vão. A única coisa que esse animal nos trouxe foi desunião. 

Indignado com tal resultado e teimoso como era, José não se conformou e continuou a sua saga de treinamentos para com o mesmo. José estava cego, não ouvia conselhos de ninguém, não percebia que ao tentar beneficiar o seu cachorro predileto, passava a esquecer do demais animais, inclusive daqueles que foram bem melhores colocados que o mesmo. 

Ao longo de 04 anos, José transformou o cachorro e acreditava que o mesmo estivesse preparado para qualquer competição. O pitbull foi adestrado e além de amigo, virou cão de guarda de José. Onde José estava, o cachorro estava do seu lado. Ai daquele que falasse mal de José ou levantasse a voz para o mesmo, imediatamente o cachorro passava a rosnar e latir. Só que para isso acontecer, José não tinha percebido que tinha perdido o respeito dos demais cachorros no canil, pois nenhum deles aceitava o esquecimento, a fome e falta de treinamento e investimento que passaram por conta do mesmo querer, a qualquer custo, levar o seu predileto a glória. 

Diga-se de passagem que, se não fosse Jaques e Alberto, que contornassem a situação, o canil já teria fechado. Esses que tiraram do seu prolabore, recursos para suprir as necessidades dos outros cachorros. Chegou a competição, finalmente o investimento de anos que José teve foi recompensado com o segundo lugar. Os demais cachorros em tom de piada diziam: Até eu se tivesse a melhor ração e os melhores aparelhos ficaria em segundo lugar. 

Naquele momento José percebeu que conseguiu atingir o seu objetivo, entretanto, não tinha mais nenhum comando entre os outros 09 cachorros. O respeito que ele possuía sobre os demais, fora esquecido. Dois anos depois daquela competição, Jaques, Alberto e José brigaram e acabaram com a sociedade que possuíam. Hoje cada um possui o seu canil. Há quem diga que o motivo de toda a briga e o fim do canil foi o cão de guarda de José.

Moral da história: Em que adianta se tornar um vencedor, se o percurso em busca da glória foi manchado com intrigas, desuniões e traições?

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