Populações ribeirinhas da Baía do Iguape lutam contra prejuízos causados por barragem



Com a abertura da Barragem de Pedra do Cavalo muitos pescadores e marisqueiras estão perdendo sua principal fonte de renda. As principais queixas da população ribeirinha, são a morte de peixes e mariscos - devido ao desequilíbrio da salinidade da água -, que se acumulam com outros fatores, dentre eles o entulhamento do rio, com a descida de areia das cabeceiras. Em outros momentos, já foram registrados os desaparecimentos de várias espécies, principalmente, de ostras e surubim, devido a alteração da salinidade no ambiente estuarino.


Segundo técnicos das Votorantim, a abertura das comportas é uma medida preventiva para manter o nível da barragem em boas condições. Todavia, segundo Preto da Colônia (representante da Colônia Z-07 Maragogipe), o grande problema é que os pescadores e marisqueiras estão cobrando uma posição, principalmente, da RESEX Marinha Baía do Iguape. Duas colônias (Z-07 Maragogipe e a Z-52  Santiago do Iguape) entraram com ação para as autoridades na perspectiva de resolução deste problema.


VOCÊ SABIA? MARÉ VERMELHA
Em 2007, a abertura de comportas favoreceu a proliferação de algas. Um fenômeno que ficou conhecido como maré vermelha, que atingiu a Baía de Todos os Santos, pode ter sido causado pela abertura das comportas da barragem de Pedra do Cavalo em fevereiro deste ano. A hipótese é do professor do Instituto de Biologia da Universidade Federal da Bahia (Ufba) e gerente de projetos da Fundação Ondazul, Ronan R.C. de Brito que explicou: Como os sedimentos do fundo da Barragem, que contém micronutrientes, teriam sido despejados na Baía de Todos os Santos, servindo de alimento natural para as algas, que proliferaram. Ainda de acordo com o especialista, as condições encontradas – maré calma, sol forte e temperaturas elevadas – teriam contribuído para o fenômeno.

HISTÓRICO DA BARRAGEM
A barragem Pedra do Cavalo foi construída pela Embasa e pelo Governo do Estado da Bahia, em 1985, com o objetivo de conter as enchentes que atingiam as cidades de Cachoeira e São Félix, além de se tornar importante fonte de água para a região metropolitana de Salvador - cerca de metade da água da região provém do rio Paraguaçu.

O Grupo Votorantim Energia lançou, em 09 de abril de 2005, a Usina Hidrelétrica de Pedra do Cavalo, com potência instalada de 160 MW através de duas unidades geradoras de 80 MW. O empreendimento, localizado entre os municípios de Governador Mangabeira e Cachoeira, a montante da RESEX Baía de Iguape (criada pelo Governo Federal em 2000), no rio Paraguaçu, fornece energia para abastecimento de Salvador e Região Metropolitana, microrregião de Feira de Santana e região fumageira.

A Votorantim recebeu seu aval para o funcionamento sem que tenha sido feita uma pesquisa aprofundada sobre os efeitos da mudança do fluxo de água no meio ambiente da região.


A obra prejudicou diretamente as populações ribeirinhas que habitam a região do rio posterior Barragem. Não foram feitas as devidas análises para avaliar como o funcionamento da hidrelétrica, e seu calendário próprio de represamento e liberação da água doce, afetariam a natureza da região.

A RESEX
A Reserva Extrativista Marinha da Baía do Iguape está localizada nos municípios baianos de Maragogipe e Cachoeira e ocupa uma área aproximada de 8.117,53 ha, dos quais 2.831,24 ha são terrenos de mangue e 5.286,29 ha são águas internas brasileiras. Parte da bacia do rio Paraguaçu é anexa à Baía de Todos os Santos. A Baía do Iguape é um grande lagamar bordado por manguezais extensos e em ótimo estado de conservação, tendo sido criada por decreto federal em agosto de 2000.

Declarada de interesse ecológico e social, a criação da Reserva tem por objetivo garantir a exploração autossustentável e a conservação dos recursos naturais renováveis tradicionalmente utilizados pelos habitantes locais. No caso da Baía de Iguape, pescadores e marisqueiros são responsáveis por uma produção artesanal voltada para uso interno e comércio com Salvador.

Segundo Catherine Prost: Além da pesca e da mariscagem artesanais, há entre algumas comunidades quilombolas existentes na Resex relações de trabalho em torno da agricultura familiar de subsistência e da pesca e mariscagem também para subsistência: Santiago de Iguape, São Francisco do Paraguaçu, Calolé, Engenho da Pedra, entre outras. Elas se diferem neste sentido das comunidades do lado oeste da baía (a sede municipal de Maragogipe e os distritos de Nagé, Coqueiros e São Roque), mais voltadas para a comercialização do pescado e sem práticas voltadas para a agricultura familiar.


Comentários