Marisqueiras de Maragogipe recebem 41 mil reais em equipamentos para ostreicultura


O recurso é do Fundo de Combate à Pobreza destinado a iniciativas voltadas para mulheres quilombolas

Uma depuradora, dois freezers, 450 travesseiros para cultivo de ostras, além de seis caixas térmicas, 20 caixas plásticas do tipo engradado e 40 botas de neoprene, equipamento de proteção essencial para quem trabalha nos manguezais. Todos estes itens serão entregues no próximo dia 18 de maio (quarta-feira) às 30 marisqueiras beneficiárias da campanha Marisqueira com orgulho, quilombola para sempre!, que está implantando um cultivo de ostras de base comunitária nas comunidades de Capanema e Baixão do Guaí, em Maragogipe, no Recôncavo baiano. O recurso foi adquirido através de parceria com a Secretaria de Políticas para as Mulheres da Bahia (SPM), e a secretária Olívia Santana (PCdoB) irá realizar a entrega pessoalmente. O ato acontecerá às 14h, no bairro do Pijuru, em Capanema, zona rural de Maragogipe e contará, ainda, com os serviços da Unidade Móvel da SPM que leva serviços de acolhimento, apoio psicológico, atendimentos jurídico e social às mulheres, e encaminha as demandas à rede referenciada local.


O recurso veio do Fundo de Combate à Pobreza e foi disponibilizado através de convênio com a Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional (CAR), empresa pública ligada à Secretaria de Desenvolvimento Rural, mas foi a SPM quem indicou a campanha das marisqueiras maragogipanas para receber o recurso, uma vez que ele deveria ser aplicado em projetos que visam a autonomia de mulheres quilombolas.

A campanha Marisqueira com orgulho, quilombola para sempre! faz parte do Programa Pesca para Sempre da ONG Rare, que também atua em outros países como Filipinas, Moçambique e Indonésia, com o intuito de promover a gestão sustentável da pesca artesanal, proteger os recursos naturais costeiro-marinhos e melhorar a vida de milhares de famílias ribeirinhas. Em Maragogipe, a campanha é realizada em parceria com a Fundação Vovó do Mangue e Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), e tem o apoio da Universidade Federal do Recôncavo (UFRB), Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM) e Bahia Pesca.

Ostra de Mangue x Ostra do Pacífico - Apesar do extenso litoral baiano com águas propícias para o desenvolvimento das ostras nativas ou ostras de mangue, o mercado consumidor local vem sendo abastecido pelos moluscos produzidos em Santa Catarina, estado responsável por 90% das ostras consumida no país. A espécie produzida lá é a Crassostrea gigas, de origem japonesa, também conhecida como ostra do Pacífico, que prefere águas frias e climas temperados. Para mudar esta realidade, marisqueiras de Maragogipe estão mobilizadas em uma campanha que visa aumentar a produção de ostras nativas da espécie Crassostrea rhizophorae. O lançamento da campanha aconteceu no dia 16 de março deste ano e reuniu mais de 50 marisqueiras.

“Antes a gente fazia até três quilos de ostras em uma ida ao mangue, agora a gente não consegue fazer nem um quilo numa ida”, afirmou a marisqueira e líder comunitária de Capanema, Antonia Sidilan da Conceição. De acordo com ela, o estoque de ostras no estuário da Baía do Iguape caiu depois da implantação da hidroelétrica Pedra do Cavalo e da construção do estaleiro naval Enseada do Paraguaçu, no distrito de São Roque. Além da diminuição dos estoques que impacta diretamente a renda familiar, as marisqueiras também sofrem com a desvalorização imposta pelos atravessadores. “Eles nos humilham, desvalorizam o nosso trabalho, pagam pouco pelos nossos mariscos e depois revendem muito mais caro”, desabafou Janete Sena, marisqueira e líder do Baixão do Guaí.

“A campanha não é feita para elas, mas com elas e isso faz toda a diferença. Elas são as protagonistas da mudança”, destacou Daniel Andrade, coordenador da campanha e membro da Fundação Vovó do Mangue.

Diferentes sabores - Assim como o vinho tem características determinadas pelo terroir, o sabor da ostra reflete a água em que é produzida. Enquanto a ostra marinha de Santa Catarina é mais salgada, devido à água do mar, a ostra do mangue, de água menos salobra, tem um sabor mais adocicado.


No Brasil, a Crassostrea rhizophorae e a Crassostrea brasiliana são espécies nativas. Conhecidas como ostras de mangue, são naturais de zonas estuarinas e encontradas no litoral de Santa Catarina até o Pará, mas cultivadas nos estados de São Paulo, Paraná, Bahia e Sergipe. Já a Crassostrea gigas, de origem japonesa, é produzida em fazendas marinhas.

Apesar de as ostras de mangue corresponderem a apenas 10% do consumo de ostras no Brasil, há defensores ferrenhos de suas qualidades como o chefe baiano Beto Pimentel. “Aqui temos um mangue muito rico e propício para esse cultivo, principalmente, na foz do Rio Paraguaçu onde se mistura a água salgada do mar com a doce do rio. Isso proporciona uma enorme variedade de sabores e notas”, explicou Pimentel.

A Campanha - Intitulada Marisqueira com orgulho, quilombola para sempre!, a campanha quer recuperar o estoque de ostras nativas através do engajamento das marisqueiras numa campanha por melhores práticas de manejo. A partir da valorização da origem e saberes das comunidades tradicionais e fortalecimento da auto-estima destas mulheres, a campanha visa a adoção de novas condutas no dia-a-dia delas, como a realização do rodízio de áreas de mariscagem e a não comercialização de ostras menores que cinco centímetros, fundamentais para garantir o ciclo de reprodução da espécie. A campanha utiliza metodologia desenvolvida pela Rare, executada com sucesso em diversos países nas últimas décadas, baseada no uso de ferramentas de marketing social para impulsionar mudanças de comportamento que beneficiam a natureza e a qualidade de vida das comunidades costeiras.

O outro foco de atuação da campanha é a implantação do cultivo de ostras de base comunitária. Inicialmente, a ostreicultura envolverá 30 famílias, 15 em cada comunidade. Além de gerar renda extra para as famílias, o cultivo de ostra diminuirá o esforço de mariscagem desta espécie em vida livre, fazendo com que o estoque volte a crescer no estuário. Com a ostreicultura, as marisqueiras também terão a sua produção valorizada. Para se ter uma ideia, as marisqueiras de Maragogipe vendem um quilo de ostras “desconchadas” – equivalente a 9 dúzias - por R$ 16, enquanto o cultivo do Kaonge e Dendê, comunidades do município de Cachoeira, vende uma dúzia pelo mesmo valor.

Para garantir a qualidade das ostras que serão produzidas no cultivo, uma equipe de pesquisadores do curso de Engenharia de Pesca da UFRB é responsável pelo monitoramento do meio ambiente e da espécie-alvo. Outra preocupação é capacitar as marisqueiras para que no futuro elas possam gerir o empreendimento, seguindo os princípios da economia solidária. Por isso, a Secretaria de Políticas para as Mulheres ministrará seis oficinas até o final do ano, abordando temas como gestão e comercialização.

Contatos
Gabriela da Fonseca (assessoria de comunicação):
71 99644-1517 – gabrieladafonseca@gmail.com
Daniel Andrade (coordenador local da campanha):
71 99917-3771 – daniel_souza_andrade@yahoo.com

Fonte: Fundação Vovó do Mangue

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