A História de Maragogipe é mesclada com a riqueza cultural e religiosa dos Terreiros de Candomblé

Por Zevaldo Sousa

Maragogipe é um município especial. A diversidade religiosa e é imensa e a cultura afro é parte deste município.
Peço licença para todos os representantes do Candomblé em Maragogipe para manifestar a imensa vontade que tenho em transmitir conhecimento. Sou professor de História formado na UFRB e amo ensinar a História de Maragogipe, sua cultura, tradições, ancestralidade e memória. Acredito que um povo que não conhece sua história está condenado a repeti-la e consequentemente ao fracasso. Infelizmente, a história, enquanto disciplina, não é tão valorizada no nosso município, Apesar dela ser matriz na tomada de decisões de toda sociedade e merecer especial destaque. Por este motivo, inicio este texto propositivo para dirigir algumas palavras às comunidades de matrizes africanas.

Ser/Viver/Conhecer/Saber esta ação coletiva que é cultivada dentro do Candomblé é de uma riqueza sem tamanho. É uma tradição secular, um modo de vida ímpar que desde tempos imemoriais é semeado por estas plagas. A influência africana na vida do maragogipano é grande, desde a culinária seguindo pela cultura, sociedade, linguagem e musicalidade. Acredito que a nossa Charanga tem este ritmo eletrizante por causa do ritmo quente dos tambores africanos.

Aqui em Maragogipe, a religião de matrizes africanas é diversa e muito especial. Valendo ressaltar que a História de Maragogipe é mesclada com a riqueza dos Terreiros de Candomblé. Temos o Candomblé do Pinho que consideramos o Candomblé mais velho do Brasil, assim como temos várias nações africanas. Nosso município é tão rico que as casas brotam com todo vigor e a comunidade abraça esta causa, apesar dos últimos acontecimentos de intolerância religiosa. 

Terreiro de Candomblé Ilê Axé Alabaxé - "A Casa do Põe e Dispõe de Tudo" (Maragogipe)
Aqui, temos o Terreiro de Candomblé Ilê Axé Alabaxé que foi tombado pelo IPAC. Temos riquezas especiais que são patrimônios da Humanidade e que tem suas raízes nos terreiros de Candomblé: como o Samba de roda e a Capoeira.

Para quem desconhece, a Palavra Candomblé é a reunião de três vocábulos - Ka / ndomb / lé -, que significa "lugar de costume dos negros", por extensão, lugar de tradições negras, tradições entre as quais, destacam-se, no sentido atual as práticas religiosas que incluem a música percussiva, a dança, as comidas, o idioma, usos e costumes, e principalmente a hierarquia ou organização social de um comunidade que continua desejando ser livre, reconhecida e valorizada, pois muito contribuiu com o desenvolvimento deste imenso país.

Nossa missão é grande, mas simples, é preciso que a Gestão Pública municipal, estadual e federal, reconheça a existências destes Terreiros e para que isso ocorra, é preciso pesquisa. Por este motivo, neste ano que se aproxima (2017), quero iniciar um trabalho visando mapear os terreiros de candomblé de Maragogipe, com registro fotográfico, georreferenciamento, memorial histórico, levantando as potencialidades e desafios, pensando numa perspectiva de fortalecimento dos terreiros para preservação e conservação da cultura negra em Maragogipe.

Terreiros Maragogipanos resistem à discriminação e a intolerância religiosa
Nossa ideias é exprimir as riquezas desta religião e a História dos Terreiros de Candomblé dos seis distritos município de Maragogipe em um livro para que a comunidade Maragogipana comece a valorizar o Candomblé em sua essência, assim como construir um plano de mídia (CD, DVD, páginas da internet) com o intuito de divulgar ações, festas e memórias do povo de santo.

Temos consciência que o trabalho com relação a tombamento é muito grande, mas para que estes espaços sejam reconhecidos como Patrimônios é preciso registro histórico e este será o nosso desafio inicial.



Tombamentos
De acordo com o IPHAN, o tombamento é uma ação de reconhecimento de um bem como parte do Patrimônio Cultural Brasileiro, ou seja, é um reconhecimento do Estado de que este bem tem relevância nacional. Segundo o órgão, a partir do tombamento, e como consequência dele, o Iphan passa a ter responsabilidade no acompanhamento da preservação do bem. Contudo, a responsabilidade pela conservação continua sendo dos proprietários. Desse modo, o IPHAN passa a apoiar ações de conservação, além de ter a obrigação de fiscalizar se o bem continua preservado.

Para o IPAC, ao ser tombado, o imóvel passa a ter prioridade nas linhas de financiamento público para projetos arquitetônicos, obras e restaurações prediais, sejam elas Municipais, Estaduais, Federais ou até Internacionais. Na Bahia, por exemplo, existem editais que destinam verbas a projetos de terreiros.

Atualmente, dos 19 terreiros de candomblé tombados pelo Estado da Bahia através do IPAC, somente o Terreiro de Candomblé Ilê Axé Alabaxé está localizado em Maragogipe (Veja mais sobre a história deste terreiro clicando AQUI). O IPAC também afirma que o tombamento não retira a propriedade e as obrigações do proprietário com o imóvel.

Não existe em Maragogipe, nenhum Plano Municipal de Patrimônio, nem órgão público especializado em Patrimônio Público, visando garantir um tombamento em nível municipal, tanto para prédios antigos civis ou religiosos, seja cristão ou afrodescendentes. Acreditamos que atualmente, devido a diversidade que temos no nosso município, é preciso incluir algumas casas de candomblé em uma lista de antiguidade e tradição.

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